Prophylaxis – Clínica de Vacinação

EXPLICANDO A CORRIDA PELA VACINA

EXPLICANDO A CORRIDA PELA VACINA

O que você precisa saber sobre a vacina contra a COVID-19

A humanidade nunca teve uma tarefa tão urgente quanto criar imunidade em massa contra o coronavírus.

Por Bill Gates – 30 de abril de 2020

Uma das perguntas que mais me fazem nestes dias é quando o mundo vai poder voltar ao jeito que as coisas eram em dezembro, antes da pandemia do coronavírus. Minha resposta é sempre a mesma: quando tivermos um remédio quase perfeito para tratar a COVID-19 ou quando quase todas as pessoas do planeta forem vacinadas contra o coronavírus.

A primeira opção é bem improvável de acontecer em breve. Nós precisaríamos de um tratamento milagroso, com pelo menos 95% de eficiência, para parar a epidemia. A maioria dos remédios em teste no momento não está nem perto desse resultado. Eles poderiam salvar muitas vidas, mas não são suficientes para nos levar de volta à normalidade.

O QUE NOS DEIXA COMO ÚNICA OPÇÃO A VACINA

A humanidade nunca teve uma tarefa tão urgente quanto criar imunidade em massa contra o coronavírus. De forma realista, se nós vamos voltar à normalidade, precisamos desenvolver uma vacina segura e eficaz. Precisamos produzir bilhões de doses, precisamos levá-las a todas as partes do mundo e precisamos que isso aconteça o mais rapidamente possível.

Se isso parece assustador, é porque é mesmo. Nossa fundação (Fundação Bill e Melinda Gates) é a maior financiadora de vacinas no mundo e esse esforço minimiza tudo com que já trabalhamos antes. Requer um esforço de cooperação global como o mundo nunca viu. Mas eu sei que vamos conseguir. Simplesmente não há outra alternativa.

Aqui segue tudo que você precisa saber sobre a corrida para criar a vacina contra a COVID-19.

O MUNDO ESTÁ CRIANDO ESTA VACINA NUM CRONOGRAMA HISTORICAMENTE RÁPIDO

O Dr. Anthony Fauci (infectologista chefe do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA) disse que ele imagina que vai levar por volta de 18 meses para que se desenvolva uma vacina contra o coronavírus. Concordo com ele, apesar de que esse tempo poderia ser tão breve quanto nove meses ou tão longo quanto dois anos.

Apesar de 18 meses parecer muito tempo, seria o mais rápido que os cientistas já criaram uma nova vacina na história. Esse tipo de desenvolvimento normalmente leva por volta de cinco anos. Uma vez que você seleciona a doença a combater, você tem que criar a vacina e testá-la em animais. Só então você começa a testar a segurança e a eficácia em seres humanos.

Segurança e eficácia são os dois objetivos mais importantes em todas as vacinas. Segurança é exatamente o que parece: é seguro dar a vacina às pessoas? Alguns pequenos efeitos colaterais (como uma febre leve ou dor no local da injeção) podem ser aceitáveis, mas você não quer inocular as pessoas com algo que as faça ficarem doentes.

A eficácia mede o quão bem a vacina te protege de ficar doente. Apesar de você idealmente querer uma vacina que seja 100% eficaz, muitas não são. Por exemplo, a vacina contra a gripe deste ano é por volta de 45% eficaz.

Para testar sua segurança e eficácia, toda vacina passa por três fases de testes:

  • A fase 1 é o teste de segurança. Um pequeno grupo de voluntários saudáveis recebe a vacina candidata. Você testa diferentes dosagens para criar a resposta imunológica mais forte com a menor dose eficaz sem efeitos colaterais sérios.
  • Uma vez que você estabeleceu a fórmula, você parte para a fase 2, que diz o quão bem a vacina funciona nas pessoas que devem tomá-la. Dessa vez, centenas de pessoas recebem a vacina. Esse grupo deve incluir pessoas de idades e estados de saúde diferentes.
  • Então, na fase 3, você dá a vacina a milhares de pessoas. Essa é normalmente a fase mais longa, porque ela ocorre no que se denomina “condições naturais da doença”. Você a introduz a um grande número de pessoas que provavelmente estão em risco de infecção pelo patógeno alvo e, então, espera e vê se a vacina reduz o número de pessoas que ficam doentes.

Depois que a vacina passa pelas três fases de teste, você começa a construir as fábricas para produzí-la e ela é submetida à OMS e às várias agências de governo para aprovação.

Esse processo funciona bem para a maioria das vacinas, mas o cronograma de desenvolvimento normal não é bom o suficiente neste momento. Cada dia que conseguimos cortar deste processo faz uma enorme diferença quando se fala em salvar vidas e reduzir danos econômicos em trilhões de dólares.

Então, para acelerar o processo, os desenvolvedores da vacina estão comprimindo o cronograma.

O gráfico abaixo mostra como:

No processo tradicional, as etapas são sequenciais para endereçar perguntas-chave e fatos desconhecidos. Isso pode ajudar a mitigar riscos financeiros, já que criar uma nova vacina é um processo muito caro. Muitas vacinas candidatas não dão certo, e é por isso que as empresas esperam para investir nas etapas seguintes até que elas tenham certeza que a anterior foi bem sucedida.

Para a COVID-19, o financiamento do desenvolvimento da vacina não é um problema. Governos e outras organizações (incluindo nossa fundação e uma aliança incrível chamada Coalizão para Inovações em Preparação a Epidemias – a CEPI) deixaram bem claro que farão de tudo para encontrar uma vacina. Então, os cientistas estão conseguindo economizar tempo ao realizar várias etapas de desenvolvimento simultaneamente. Por exemplo, o setor privado, governos e a nossa fundação vão começar a identificar instalações para fabricar diferentes vacinas potenciais. Se algumas destas instalações não forem utilizadas, tudo bem. É um preço pequeno a se pagar para adiantar a produção.

Felizmente, comprimir o cronograma de testes não é a única maneira de fazer com que um processo que normalmente dura cinco anos seja feito em apenas 18 meses. Outra maneira de fazer isso é testando várias abordagens diferentes ao mesmo tempo.

EXISTEM DÚZIAS DE CANDIDATOS NESTE PROCESSO

Em 9 de abril, existiam 115 candidatas diferentes à vacina da COVID-19 em processo de desenvolvimento. Acredito que entre oito e dez destas são particularmente promissoras (nossa fundação vai ficar de olho em todas as outras para ter certeza de não perder nenhuma que apresente características positivas, no entanto).

As candidatas mais promissoras abordam de maneiras diferentes como proteger o corpo da COVID-19. Para entender exatamente o que isso significa, vale lembrar como o sistema imunológico do ser humano funciona.

Quando um patógeno de uma doença entra no seu sistema, seu corpo reage, produzindo anticorpos. Estes anticorpos se unem a substâncias chamadas antígenos na superfície do micróbio, que manda uma mensagem ao seu corpo para atacar. Seu sistema imunológico mantém um registro de cada micróbio que ele já derrotou para que possa reconhecer e destruir rapidamente invasores antes que você fique doente.

As vacinas contornam todo esse processo ao ensinar seu corpo como derrotar um patógeno sem nunca ter ficado doente. Os dois tipos mais comuns – e os que são provavelmente mais familiares a você – são as vacinas inativadas e as vivas. As vacinas inativadas contém patógenos que já foram mortos. As vacinas vivas, por outro lado, são feitas de patógenos vivos que foram enfraquecidos (ou atenuados). Elas são muito eficazes, mas mais propensas a efeitos colaterais que seus pares inativados.

As vacinas inativadas e vivas são o que consideramos abordagens “tradicionais”. Existe um bom número de candidatas a vacinas contra a COVID-19 dos dois tipos, por uma boa razão: eles são bem estabelecidos. Nós sabemos como testá-los e fabricá-los.

O lado ruim é que eles consomem muito tempo para serem produzidos. Muito material é empregado em cada dose dessas vacinas. A maioria desse material é biológico, o que significa que é preciso cultivá-lo. E isso leva tempo, infelizmente.

É por isso que estou particularmente animado com duas novas abordagens que alguns candidatos à vacina estão seguindo: vacinas de RNA e DNA. Se uma dessas abordagens funcionar, nós provavelmente poderemos levar as vacinas ao mundo muito mais rápido (para não complicar demais as coisas, vou apenas explicar as vacinas de RNA, as vacinas de DNA são similares, com pequenas mudanças no tipo de material genético utilizado e no método de administração).

Nossa fundação – tanto através do nosso próprio financiamento como do CEPI – tem dado suporte ao desenvolvimento de uma plataforma de vacinas de RNA por quase uma década. Estávamos planejando usá-la para vacinas que atingem os mais pobres, como contra a malária, mas agora parece uma das opções mais promissoras contra a COVID-19. A primeira candidata a realizar testes em humanos é uma vacina criada por uma empresa chamada “Moderna”.

Uma vacina de RNA funciona assim: ao invés de injetar um patógeno em seu corpo, você dá ao corpo o código genético necessário para produzir o antígeno ele mesmo. Quando os antígenos aparecerem fora das suas células, seu sistema imunológico os ataca – e aprende a como derrotar futuros intrusos no processo. Essencialmente, você faz com que seu corpo se transforme no seu próprio fabricante de vacinas.

Como as vacinas de RNA deixam que seu corpo faça a maioria do trabalho, elas não requerem tanto material. E isso as torna muito mais rápidas de fabricar. Existe um porém, no entanto: nós ainda não temos certeza se a plataforma de vacina de RNA é viável. Como a COVID-19 seria a primeira vacina de RNA a ser feita, nós teríamos que provar tanto que plataforma funciona e que ela cria imunidade. É um pouco como construir seu computador e seu primeiro software ao mesmo tempo.

Mesmo que a vacina de RNA continue a se mostrar promissora, nós precisamos continuar na busca por outras opções. Nós ainda não sabemos como a vacina contra a COVID-19 vai ser. Até lá, precisamos seguir a todo vapor com o máximo de abordagens possíveis.

PODE AINDA NÃO SER UMA VACINA PERFEITA – E TUDO BEM

A vacina contra a varíola é a única vacina que erradicou completamente uma doença da face da Terra, mas é também uma vacina bastante brutal de se receber. Ela deixava uma cicatriz no braço de quem quer a recebesse. Uma em cada três pessoas sofria efeitos colaterais fortes o suficiente para impedí-la de sair de casa para a escola ou para o trabalho. Um pequeno – mas não insignificante – número de pessoas desenvolvia reações mais sérias.

A vacina contra a varíola estava longe de ser perfeita, mas cumpriu seu trabalho. Com a vacina contra a COVID-19, pode ocorrer o mesmo.

Se estivéssemos projetando uma vacina perfeita, nosso desejo seria de algo completamente seguro e 100% eficaz. Deveria ser aplicada em dose única, garantir a proteção para a vida toda e deveria ser fácil de manter e de transportar. Eu espero que a vacina contra a COVID-19 tenha todas essas características, mas dado o cronograma em que nos encontramos, talvez não tenha.

As duas prioridades, como mencionado anteriormente, são a segurança e a eficácia. Como talvez não tenhamos tempo de realizar estudos mais completos, teremos que conduzir os testes de segurança da fase 1 de maneira robusta e ter certeza que conseguiremos boas evidências do mundo real de que a vacina é completamente segura.

Temos um pouco de espaço de manobra em relação à eficácia. Suspeito que uma vacina pelo menos 70% eficaz será suficiente para frear a epidemia. Uma vacina 60% eficaz seria útil, mas ainda veríamos alguns surtos localizados. Qualquer resultado abaixo de 60% tornaria improvável a criação de imunidade de rebanho para parar o vírus.

O grande desafio é fazer com que a vacina funcione bem nas pessoas mais velhas. Quanto mais velho você fica, menos eficazes as vacinas se tornam. Seu sistema imunológico – assim como o resto do seu corpo – envelhece e fica mais lento em reconhecer e atacar invasores. Essa é uma das grandes questões da vacina contra a COVID-19, já que a população idosa é a mais vulnerável. Precisamos garantir que ela esteja protegida.

A vacina contra o herpes zóster – que também mira a população mais velha – combate essa questão amplificando a força da vacina. É possível que façamos algo similar contra a COVID-19, apesar de isso poder causar mais efeitos colaterais. As autoridades de saúde podem também pedir que pessoas mais velhas tomem uma dose adicional da vacina.

Além da segurança e da eficácia, há outros fatores a serem considerados:

  • Quantas doses serão? Uma vacina em dose única é mais fácil e mais rápida de ser entregue. Mas talvez precisemos de uma vacina em mais doses para garantir eficácia suficiente.
  • Por quanto tempo durará? Idealmente, a vacina dará a você imunidade para a vida toda. Mas talvez tenhamos uma que apenas impeça que você fique doente por alguns meses (como a da gripe sazonal, que protege por mais ou menos seis meses). Se esse for o caso, uma vacina de curto prazo talvez seja usada enquanto se desenvolve outra que tenha mais duração.
  • Como você a armazena? Muitas das vacinas comuns são mantidas a 4 graus. Essa é mais ou menos a temperatura da sua geladeira, então o armazenamento e o transporte são simples. Mas as vacinas de RNA precisam ser armazenadas a uma temperatura muito mais baixa – 80 graus negativos – o que as torna difíceis de alcançar algumas partes do mundo.

Minha esperança é que a vacina que tivermos em 18 meses esteja o mais próximo da “perfeição” possível. Mesmo que não esteja, vamos continuar trabalhando para melhorá-la. E depois, suspeito que a vacina contra a COVID-19 fará parte da caderneta de vacinação de rotina para todos os recém-nascidos.

Uma vez que tivermos uma vacina, no entanto, ainda teremos grandes problemas a resolver. Isso porque…

PRECISAMOS FABRICAR E DISTRIBUIR PELO MENOS 7 BILHÕES DE DOSES DE VACINA

Para frear a pandemia, precisamos tornar a vacina disponível a quase todas as pessoas do mundo. Nós nunca entregamos algo a todos os cantos do planeta. E, como mencionado anteriormente, vacinas são particularmente difíceis de fabricar e de armazenar.

Existem muitas coisas que ainda não conseguimos resolver sobre a fabricação e a distribuição da vacina até que saibamos exatamente com o que estamos lidando. Por exemplo, vamos poder usar as fábricas de vacina existentes para produzir as vacinas contra a COVID-19?

O que podemos fazer agora é construir diferentes tipos de fábrica de vacina para nos prepararmos. Cada tipo de vacina requer um tipo diferente de fábrica. As instalações precisam estar prontas para produzir cada um desses tipos, então poderemos começar a fabricar a vacina final (ou vacinas) o mais cedo que pudermos. Isso vai custar bilhões de dólares. Os governos precisam encontrar rapidamente um mecanismo para tornar disponível o acesso a esse financiamento. Nossa fundação está atualmente trabalhando com a CEPI, com a OMS e com governos de diferentes países para encontrar uma solução para esse financiamento.

Parte destas reuniões foca em quem vai receber a vacina quando. A realidade é que nem todo mundo vai poder receber a vacina ao mesmo tempo. Vai levar meses – ou até anos – para criar 7 bilhões de doses (ou possivelmente 14 bilhões, se for uma vacina em duas doses), e precisamos começar a distribuí-las assim que a primeira leva estiver pronta.

A maioria das pessoas concorda que os trabalhadores de saúde devem ser os primeiros a serem vacinados. Mas quem seriam os próximos? Idosos? Professores? Trabalhadores essenciais?

Acho que países mais pobres deveriam ser alguns dos primeiros a receber a vacina, já que suas populações correm muito mais risco de vida. A COVID-19 se espalhará muito mais rápido em países pobres porque medidas como o distanciamento físico são difíceis de se realizar. Mais pessoas apresentam piores condições de saúde, o que as torna mais vulneráveis a complicações e seus sistemas de saúde mais fracos torna difícil que elas recebam a assistência que necessitam. Levar a vacina a países mais pobres pode salvar milhões de vidas. A boa notícia é que já temos uma organização com expertise em como realizar esta tarefa na GAVI, a Aliança da Vacina.

Com a maioria das vacinas, os fabricantes assinam acordos com o país onde se encontram suas fábricas, então este país fica com o primeiro lote das vacinas. Não está claro se este tipo de acordo vai se manter nesta situação. Espero que encontremos uma maneira de distribuirmos a vacina de forma igualitária por todo o mundo. A OMS a as autoridades de saúde nacionais terão que desenvolver um planejamento de distribuição assim que tivermos conhecimento de com o que estamos lidando.

Mais cedo ou mais tarde, no entanto, conseguiremos aumentar a escala para que a vacina esteja disponível a todos. E então poderemos voltar à normalidade – e esperançosamente tomar decisões que nos ajudem a prevenir que nos encontremos nessa mesma situação novamente.

Pode ser difícil de visualizar agora, mas existe uma luz no fim do túnel. Estamos fazendo as coisas certas para alcançarmos uma vacina o mais rapidamente possível. Enquanto isso, insisto que você continue a seguir as diretrizes das autoridades locais. Nossa habilidade de passarmos por essa epidemia depende que cada um faça sua parte para mantermos uns aos outros seguros.

Fonte: Fundação Bill e Melinda Gates
https://www.gatesnotes.com/Health/What-you-need-to-know-about-the-COVID-19-vaccine?WT.mc_id=20200430100000_COVID-19-vaccine_BG-EM_&WT.tsrc=BGEM

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