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Impactos negativos do movimento antivacina

Imunização é uma das maiores intervenções da saúde pública para prevenir doenças e óbitos, principalmente em crianças. O Programa de Imunização expandiu-se por todo o mundo desde 1974 com o sucesso da erradicação da varíola. No século XX, o número de vacinas cresceu significativamente com o aparecimento cada vez mais de novas vacinas. Nos programas de vacinação de rotina a meta é alcançar 90 a 95% de cobertura vacinal e boa parte dos países conseguem. Graças à eficiência destes programas é que a varíola foi erradicada do mundo, a poliomielite erradicada das Américas, o Sarampo eliminado das Américas e grande parte das doenças imunopreveníveis tiveram uma redução considerável.

Em várias épocas surgem, com mais ou menos intensidade, movimentos anti-vacina.  Alguns deles ligados a grupos religiosos ou terapêuticos, outros convencidos que determinadas vacinas são capazes de causar doenças graves como o autismo e o retardo mental, outros ligados a denunciar a política de lucro dos laboratórios ou instituições farmacêuticas produtores de vacinas e medicamentos.

Ficou demonstrado, por estudos publicados em revistas internacionais de reconhecida seriedade, os efeitos prejudiciais que estes movimentos podem trazer.

Estudo publicado na revista Lancet em 1988, mostrou que nos países onde circulou com mais intensidade o boato de complicações neurológicas e retardo mental associado à aplicação da vacina tríplice bacteriana (tétano, difteria e coqueluche com células inteiras), como Reino Unido, Suíça, Japão, Rússia, Irlanda, Itália, Alemanha Oriental e Austrália, foi observado uma incidência de coqueluche bem maior em relação aos países que mantiveram seus programas de vacinação com esta vacina (Hungria, Alemanha, Polônia e Estados Unidos). A coqueluche é uma doença infecciosa exaustiva, pois pode durar meses e apresentar complicações como pneumonia e quadros neurológicos com seqüelas, principalmente em crianças menores de 6 meses, podendo também levar a óbito.

Ocorreram movimentos passivos contra a vacina entre profissionais de saúde e grupos religiosos alegando segurança. Praticantes de medicina natural, alternativa, quiropraxia e homeopatia foram os que mais se envolveram em movimentos ativos.
No Reino Unido chegou a ser criada a Associação de Pais de Crianças Prejudicadas pela Vacina. A cobertura da vacina tríplice bacteriana caiu de 77% para 33% e como conseqüência ocorreram 3 grandes epidemias de coqueluche. Foram notificados 102.500 casos, com 36 óbitos. Isto ocorreu entre 1970 e 1980. Após estes resultados a vacina passou a ser mais bem aceita.

O Japão também suspendeu a imunização de 1975 a 1979 e este fato foi responsável por uma epidemia com 13.000 casos de coqueluche e 40 óbitos. Nesta ocasião os japoneses criaram a vacina acelular.

A mídia tem papel importante nesta controvérsia publicando matérias alarmistas. Em 1997 a vacina tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) tornou-se foco de um novo debate, sendo associada à ocorrência de autismo. O Reino Unido mais uma vez teve um papel proeminente, diminuindo significativamente a aplicação da vacina. Os EUA sofreram influência da Inglaterra, baixando bem a cobertura vacinal.  Grupos anti-vacina neste episódio tiveram uma influência maior, pois contavam com um importante aliado – a internet. A queda da vacinação coincidiu com um grande número de surtos de sarampo trazendo como conseqüência a possibilidade da doença novamente se tornar endêmica.

Pesquisa importante publicada em 2001 (revisão IOM) concluiu pela rejeição da hipótese do autismo estar associado à vacina tríplice viral. A partir daí a cobertura da vacina subiu consideravelmente.  Apesar da conclusão de vários estudos, muitos pais ainda se recusam a aplicar a vacina tríplice viral, pois a controvérsia ainda se mantém alimentada pela mídia e por grupos de pais organizados em associações.

No final dos anos 90, alguns neurologistas franceses publicaram casos vacinados com Hepatite B e que iniciaram quadros de esclerose múltipla alguns dias após, semanas ou meses da aplicação da vacina. Este fato levou à suspensão da vacinação de adolescentes na França. Após estudos importantes chegou-se a conclusão que foi uma associação acidental e não tinha relação com a vacina.

Atualmente a vacina contra influenza A H1N1 tem sofrido a ação do lobby anti-vacina. A internet, através principalmente de blogs, tem se mostrado o principal meio de publicação de conceitos bem duvidosos que afirmam que a pandemia é uma estratégia inventada pela OMS, que esta nova influenza não tem comportamento diferente da influenza sazonal e que se tornou um negócio lucrativo para a indústria da saúde. Vários estudos mostram a gravidade do comprometimento pulmonar nesta nova pandemia, diferente do que ocorre com a gripe sazonal. Também o comprometimento maior da criança e do adulto jovem é bem diferente da influenza sazonal que ocorre mais em idosos.

A sociedade não pode se deixar levar por opiniões inconsistentes e deve reforçar a confiança em instituições de peso como a OMS, o CDC e os órgãos nacionais de controle e prevenção de doenças (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de cada país). O prejuízo que estes movimentos geram trazendo insegurança aos pais é enorme. Ocorrência de óbitos por difteria, sarampo, coqueluche, tétano em crianças que não foram vacinadas pelos motivos citados acima é uma situação absurda que poderia ter sido evitada.

É preciso que a sociedade se informe através de sites confiáveis, de sociedades médicas, quando aparecerem informações, na maioria vinda de fontes leigas, que põem em dúvida procedimentos adequados que salvam vidas.

Meri Baran