Cobertura Vacinal no Brasil

Julho 2018

Há poucos dias atrás o Ministério da Saúde do Brasil (MSB) divulgou uma triste notícia: a de que boa parte das cidades brasileiras apresentam hoje uma cobertura vacinal contra a Poliomielite inferior a 50%.  E mais: que a diminuição da cobertura vacinal em nosso território estende-se a outras doenças transmissíveis, doenças estas que num passado não muito distante atingiam de forma importante a nossa população, sendo responsáveis por graves sequelas e mortes.

Alguns fatores contribuíram para esta diminuição da cobertura vacinal, como:

  •  A ausência de surtos de várias destas doenças nas últimas décadas, o que deu a “impressão” de que estas doenças não mais existiam e que não havia portanto mais a necessidade de se continuar vacinando;
  • Os movimentos anti-vacina, mais fortes no primeiro mundo, que encontram repercussão de alguma maneira nas nossas redes sociais;
  • O desabastecimento de algumas vacinas no mercado nos últimos anos, tanto na rede pública quanto na rede privada.

 

Para quem não se recorda (ou não era nascido), vale aqui compartilhar um pouco da experiência de quem vivenciou um período mais sombrio de nossa saúde e quem sabe motivar a sua reflexão:

  • Nos anos 80 a quantidade de crianças internadas com Sarampo nas enfermarias em todo o Brasil era assustadora e muitas evoluíam para o óbito, principalmente as abaixo do 1o. ano de vida. Este panorama mudou gradativamente com a introdução da vacinação de rotina contra o Sarampo em nosso país.
  • Hoje, nossos médicos mais jovens nunca viram casos de Sarampo, Difteria ou Tétano neonatal. Aliás, o Tétano neonatal se tornou raríssimo com a vacinação sistemática de todas as gestantes, e a Rubéola congênita, motivo de tanto sofrimento para toda a família, já é considerada controlada em nosso país graças ao uso contínuo da vacina tríplice viral nos últimos 20 anos.
  • E a Poliomielite?  Quem conheceu, a partir dos anos 90, alguma criança na vizinhança com a terrível sequela produzida pelo vírus da Pólio? Pois antes da era pré-vacina este fato era comum. E a maioria das pessoas era contaminada na infância, tamanha era a circulação e a transmissão do vírus, daí o nome “paralisia infantil”.
  • Não vamos nem falar da Varíola, que outrora dizimou, durante séculos, milhares de pessoas no Brasil e no mundo, sem que nada a detivesse, até a 1ª. vacina ser desenvolvida e utilizada como deve ser, de forma ampla.

 


Pois bem, é de suma importância frisar que a “ausência” destas doenças no mundo de hoje não se deu por um “efeito mágico” e sim por um esforço enorme dos órgãos de saúde em todo o mundo ao implementar, a partir da década de 70, a utilização em larga escala (de forma rotineira e através de campanhas) das vacinas contra as doenças imunopreveníveis.


 

De lá para cá, novas vacinas foram desenvolvidas e incorporadas na rotina de imunização, vacinas estas que já começaram a modificar a dinâmica de transmissão e a história de outras doenças importantes, como a Hepatite B, a doença causada pelo Haemophilus b e a doença Meningocócica, entre outras.

Como consequência direta deste trabalho, pudemos observar, ano após ano, a diminuição do número de casos destas doenças e uma queda expressiva da mortalidade infantil em nosso país.

Mas e agora, o que está acontecendo? Por que doenças como o Sarampo, já considerado “eliminado” pela OMS no Brasil desde 2016, volta agora a nos ameaçar de forma tão importante e rápida? A resposta é muito simples: Os agentes patogênicos não deixaram de existir. Estão só aguardando uma chance, um descuido de nossa vigilância e uma diminuição da cobertura vacinal para acharem um caminho de sobrevivência. É a lei da natureza.

Com a grave situação que vem ocorrendo na Venezuela – com o ressurgimento do Sarampo e da Difteria (a suspeita de Pólio foi felizmente descartada) –  e a intensa migração da população venezuelana para o Brasil, fica clara a vulnerabilidade de qualquer país que se descuida de sua cobertura vacinal.

Para que consigamos sustentar um padrão de saúde com absoluto controle das doenças imunopreveníveis é imperativa a manutenção de uma alta cobertura vacinal contra estas doenças, com pelo menos 90 a 95% das crianças completamente vacinadas no primeiro ano de vida. E isto não significa que o restante da população não deva se preocupar: crianças mais velhas, adolescentes e adultos também precisam estar atentos para vacinas que precisam de reforços ou vacinas novas / próprias para outras faixas etárias.

E de quem é a responsabilidade pelo retorno destas doenças? O que podemos fazer? A responsabilidade é de todos nós! Cabe a cada governo ser vigilante e disponibilizar e orientar corretamente sobre o uso das vacinas e cabe à população ser consciente e se vacinar.

A vacinação, como toda a ação preventiva, depende diretamente da informação.  Assim, é fundamental que as pessoas busquem informações em fontes confiáveis e não deem crédito a qualquer informação que recebam. Quem cria ou repassa informações falsas com relação às vacinas são responsáveis por estas informações e suas consequências. A informação salva vidas, a desinformação é criminosa e trágica.

 

Dra. Meri Baran
Pediatra, especialista em Saúde Pública e Epidemiologia
Consultora técnica da Prophylaxis Clínica de Vacinação