Prophylaxis – Clínica de Vacinação

Vacina só faz sentido no coletivo

A decisão do governo britânico de adiar a aplicação da segunda dose da vacina Oxford/AstraZeneca para que mais pessoas possam receber, já, ao menos uma dose não é uma estratégia nova e dá resultados. O exemplo mais importante foi a introdução na rede pública brasileira da vacinação contra o Haemophilus influenzae tipo B (Hib) com três doses, em vez das quatro preconizadas pelos fabricantes e adotadas na vacinação privada e nos países do Hemisfério Norte. O uso alargado da vacinação na rede pública acabou por contribuir significativamente para o controle dessa infecção, que era a principal causa de meningite bacteriana em crianças de até 5 anos.

A interrupção da transmissão do Sars-CoV-2 só se dará com a vacinação em larga escala. Estima-se hoje que será necessário vacinar pelo menos 75% da população para que se alcance a imunidade comunitária. Essa cobertura pode não ser suficiente, e é aí que se estabelece a necessidade de reforços e da periodicidade. Quando se iniciou a vacinação universal contra a hepatite B, previa-se um reforço cinco anos após a primeira dose. Como a transmissão caiu a níveis muito baixos, esse reforço não foi necessário.

As vacinas são desenhadas, desenvolvidas e atuam com base em parâmetros da medicina coletiva. Elas devem ser empregadas em larga escala e têm na segurança seu principal atributo. A ação das vacinas se dá sobre a circulação das doenças na comunidade, e se exige que sejam amistosas ao meio ambiente, ao ser humano e aos animais. Por isso, os valores de eficácia medidos num número restrito de indivíduos não são os indicadores mais importantes. No Brasil, a compreensão dessa parametria coletiva das vacinas é um tema complexo, dado o caráter pró-medicamentoso de nossa cultura. É comum o destemor por medicamentos, ingeridos mesmo quando não têm eficácia comprovada contra o que deveriam agir. A ciência das drogas e medicamentos é baseada em parâmetros individuais, já que os remédios se endereçam a doença instalada na pessoa e não a sua circulação comunitária. Esse é um dos motivos pelos quais os medicamentos devem ser utilizados individualmente e apenas quando necessários, tendo com frequência efeitos tóxicos.

As vacinas que estão sendo utilizadas em quase todo o mundo são promissoras em sua capacidade de promover a imunidade coletiva, mas a estratégia de deixar as crianças de fora da vacinação é temerária. Causa ainda mais preocupação que essa estratégia se deva apenas ao alto custo de incorporá-las em testes clínicos. Quando o vírus encontra um hospedeiro hostil, como adultos vacinados, ele se adapta e parte em busca de hospedeiros sem defesa. Num cenário global de adultos imunes ao Sars-CoV-2, o vírus poderá recorrer à população de crianças vulneráveis antes de ter de buscar outra espécie para se alojar. Além de vacinarmos toda a população adulta o quanto antes, é preciso cobrar dos fabricantes estudos que permitam a vacinação de crianças num curto espaço de tempo, para evitar que o vírus as transforme em alvos após a vacinação ampla dos adultos.

Miriam Tendler é médica, doutora em doenças infecciosas e parasitárias, pesquisadora titular aposentada da Fiocruz e uma das fundadoras da Prophylaxis.

https://oglobo.globo.com/opiniao/vacina-so-faz-sentido-no-coletivo-24851280

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