Prophylaxis – Clínica de Vacinação

Vacinas para prevenção do câncer

Hoje em dia já é bem caracterizada a relação entre inflamação crônica causada por uma infecção viral persistente e o desenvolvimento de alguns tipos de câncer, como o hepatocarcinoma x vírus da Hepatite B (HBV), o câncer de colo de útero x Papiloma vírus humano (HPV) e o câncer gástrico x Helicobacter pylori.

A boa notícia é que a redução na transmissão de 2 destes vírus – HBV e HPV – através do uso rotineiro e ampliado de vacinas pela população representa um potencial direto de redução da incidência de tumores relacionados.

HEPATITE B e CÂNCER

A Hepatite B ainda é considerada um problema de saúde pública mundial, com aproximadamente 291 milhões de pessoas infectadas no globo (2016), apesar de haver uma vacina extremamente segura e eficaz disponível desde a década de 80.

A transmissão do vírus da Hepatite B (HBV) através do contato com sangue e fluidos corporais foi precoce- mente estabelecida. Entretanto, foi a conscientização da relevância da transmissão sexual e a comprova- ção da contaminação também no momento do parto que mudou drasticamente a indicação de uso da vacina na década de 90, passando a ser universalmente recomendada a partir do nascimento, já que quando administrada nas primeiras horas de vida reduz em 90% o risco de transmissão perinatal (mesmo quando a mãe é HBsAg +).

Os programas de eliminação da transmissão do vírus da Hepatite B na infância são especialmente importantes quando consideramos o risco e as consequências de uma infecção persistente pelo HBV.

CRIANÇAS APRESENTAM UM MAIOR RISCO DE CRONICIDADE

Sabe-se hoje que risco de uma pessoa infectada evoluir para uma forma crônica é inversamente proporcional à idade de contaminação: enquanto 90% dos recém-nascidos infectados e 30-50% das crianças infectadas entre 1 e 5 anos de vida evoluem para uma infecção persistente, menos de 5% dos adultos infectados se tornam crônicos.

A CRONICIDADE ESTÁ DIRETAMENTE RELACIONADA AO DESENVOLVIMENTO DO HEPATOCARCINOMA

E as consequências da infecção persistente pelo HBV já são bem determinadas, onde 20-30% dos indivíduos que se tornam crônicos morrem prematuramente de cirrose ou câncer primário de fígado (hepatocarcinoma). Esta correlação se torna ainda mais expressiva nas áreas endêmicas da doença, onde 60-90% dos casos de hepatocarcinoma em adultos e aproximadamente 100% dos casos em crianças estão relacionados à forma crônica da doença.

A vacinação global contra a Hepatite B a partir do nascimento nos últimos 20 anos já é responsável por uma queda importante nas taxas de infecção pelo vírus em crianças menores de 5 anos (de 4,7% na era pré-vacina para 1,3% em 2015) e representa hoje uma ferramenta promissora no combate ao hepatocar- cinoma entre os jovens.

HPV e CÂNCER

O papiloma vírus humano (HPV) é um grupo que compreende mais de 150 tipos virais relacionados e é atualmente a infecção sexualmente transmissível mais comum em todo o mundo. Estima-se que pratica- mente todas as pessoas sexualmente ativas serão contaminadas por pelo menos 1 tipo do vírus ao longo da vida.

A infecção pelo HPV é assintomática, o que permite uma grande transmissão sem o conhecimento, e ocorre geralmente nos primeiros anos da vida sexual (3/4 das infecções em mulheres ocorrem dos 15-24 anos).

A infecção persistente (por pelo menos 10 anos) por um dos tipos oncogênicos do vírus (16 ou 18) pode causar câncer de colo de útero nas mulheres (em torno de 70% dos casos são associados aos subtipos 16 e 18) e anu-genital e oro-faríngeo em ambos os sexos.

O câncer cervical é o 4o. câncer mais comum em todo mundo e, apesar de ser um dos poucos que podem ser prevenidos, continua a ser um problema de saúde pública global importante.

A vacinação sistemática de todos os jovens, preferencialmente antes do início da vida sexual, é o método mais eficaz para a prevenção da infecção e suas consequências. Por este motivo vários países
– incluindo o Brasil (desde 2014) – já adotaram “Programas Nacionais de Vacinação contra o HPV”, com foco nos adolescentes. A Austrália, que implementou o programa na rede escolar em 2007, pretende se tornar em breve o 1o. país a declarar eliminado o câncer cervical associado ao HPV.

Ref: http://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/hepatitis-b / https://www.thelancet.com/pdfs/journals/langas/PIIS2468-1253(18)30056-6.pdf https://www.cdc.gov/hepatitis/hbv/index.htm / https://www.cdc.gov/vaccines/vpd/hpv/ / http://www.hpvvaccine.org.au/

Nota de Revisão

TUMORES DE CAVIDADE ORAL RELACIONADOS AO HPV

Dr. Claudio Silveira Tovar
Pneumologista, Mestre em Saúde e Meio Ambiente (Fiocruz)

Estudos epidemiológicos comprovam o crescente papel de subtipos específicos do vírus HPV no desenvol- vimento de tumores da cavidade oral, especialmente os localizados na base da língua e em região tonsilar.

Distinto dos tumores de cabeça e pescoço relacionados a exposição prévia ao tabaco e ao álcool, onde são frequentes as mutações no gene supressor p53, as neoplasias associadas à infecção pelo HPV estão predominantemente relacionadas ao genótipo infectante, majoritariamente o HPV-16 e o HPV-18.

Responsável por mais de 50% dos tumores de orofaringe atualmente identificados, as neoplasias de orofaringe HPV relacionadas apresentam características clínicas bem específicas tais como a localiza- ção anatômica preferencial, o nítido predomínio no sexo masculino, a maior incidência em jovens e um melhor prognóstico, que a distinguem dos tumores HPV negativos. Estas peculiaridades, associadas a possibilidade de prevenção e redução de incidência através a imunização, refletem uma patologia com crescente relevância na saúde pública global.

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